iPod School

O imediatismo

Clarissa BorgesClarissa Borges

Já dizia o meu professor de Literatura que o mal do século 20 era o sentimentalismo para alguns, mas que para ele era o amor não correspondido. E assim perguntava ele para todos nós que, nascidos no ano de 1997, só vivemos em plena consciência no século 21: para vocês, qual é o mal do século 21? Ouvi de tudo: violência, egoísmo, capitalismo… e não discordo de absolutamente nada que foi dito. Mas, sem dúvida, o que mais se encaixaria nesses quase 13 anos de século 21 é o imediatismo. O imediatismo é aquilo que faz a gente querer tudo o mais rápido possível.

Você mal pode esperar para um amigo viajar pro exterior e trazer logo um iPhone 5S ou 5C pra você. Sua vida não estará completa se não puder ter um iPhone colorido ou um que só precise de uma digital para ser desbloqueado. Ouvi muito falar que o Steve Jobs deixou projetos de iPhones, iPads e outros iTrecos que seriam suficientes para a Apple manter seus lançamentos por cinco anos. Não sei se é verdade, li sua biografia de cabo a rabo e não vi nada parecido, naturalmente, e as fontes de quem obtive essa informação nem são tão confiáveis assim. A princípio, achei espetacular, tipo “nossa, o cara era tão gênio que conseguiu inventar tecnologia para os próximos cinco anos”. Mas pensando cá com os meus botões, isso é ridículo. E tudo aponta que é verdade. A tecnologia não está evoluindo a cada coisa que a Apple mostra em seus eventos. A Apple controla o que vai lançar para que, no próximo ano, você compre outro produto que já existe para eles. Quer um exemplo? Voltemos para 2010, quando a Apple apresentou o seu primeiro modelo do iPad. Como pouca gente tinha/ tem, vou explicar no que consistia o iPad de primeira geração. Nada mais que um iPod touch grande – depois de um tempo passou a existir o iPad com 3G, sendo da mesma geração ainda –, mas sem câmera, pesando 680g ou 730g e com os seus modestos 256 Mb de memória RAM. Eu, por exemplo, me deparo muitas vezes com avisos dizendo que preciso de uma câmera ou um giroscópio quando vou baixar um app. A pergunta é: será que ainda não existia tecnologia para lançar um iPad com pelo menos uma câmera traseira em 2010? E é esse o efeito que a Apple causa nas pessoas. Em um trimestre, mais pessoas visitam as 326 lojas da Apple do que os 60 milhões que visitaram os quatro principais parques temáticos da Disney no ano passado.

Sabem o que é pior? Muita gente sabe de tudo isso e continua comprando os produtos da Apple, e eu não estou me isentando desta culpa. A ansiedade de poder ter o modelo mais atual do iPhone por mais tempo fez com que milhares de pessoas pusessem seus iPhones “antigos” à venda. O que diabos a Apple faz para conseguir colocar centenas de pessoas em filas nas suas lojas esperando pelo lançamento de um iPhone? A Apple pode ter toda a sua incrível tecnologia, mas qual a necessidade de todo esse alvoroço quando um novo aparelho é lançado?

  • Matheus P.

    Excelente Post, concordo plenamente.

  • Esse é o jogo do capitalismo! Não vejo mal nenhum nisso, a questão é simples, vc tem dinheiro… entao compra… não tem dinheiro… entao vai trabalhar, estudar, ser alguém na vida … e parem de resmungar!

    • Clarissa Borges

      Não estou discutindo sobre dinheiro, Fernando. Estou falando do tanto que as pessoas dão importância a algo fútil. Leia novamente e veja se entende 😉

  • Criseletro

    Este cara so falou o que nisso coração sente mais nao fala ansiedade e o nome disto ai

  • Matheus

    Cara, parabéns pelo post.

    • Clarissa Borges

      Obrigada 😉

  • é o efeito manada atuando em indivíduos sem personalidade, tentando preencher o vazio das suas porcas vidas com bem materiais que segundo a mídia farão deles pessoas melhores e aceitas nos seus grupelhos. Só para constar, eu também compro produtos da Apple, meu computador, meu iPhone 4s etc, mas apenas para atender as minhas necessidades nessa área, e como disse alguém num comentário anterior, nesta matéria não se discute a questão de ter ou não ter dinheiro, mas qual a necessidade de correr atrás de um produto um pouco melhor do que aquele
    que temos e que ainda atende plenamente as nossas necessidades.

    • Clarissa Borges

      Muito bem observado, Carvalho.

  • Dian

    Ótima colocação!

    Realmente a Apple impressiona pela qualidade e exclusividades nos seus produtos e tecnologias.

    É claro que o publico da Apple busca esses atributos, mas alem disso o marketing estratégico e tendencioso desperta nas pessoas uma necessidade de compra meramente sazional, que é totalmente COMPORTAMENTAL!

    Descobrir problemas e nessidades nao tão importantes assim e aplicar soluções nos seus produtos que atendam tais nessidades.

  • O autor está se despertando da matrix

    • Clarissa Borges

      hahahaha com certeza! 🙂

  • Vladimir

    Clarissa, obrigado pelo texto! Eu estava precisando ler algo assim!

  • Rui Hall

    Gosto mto de tecnologia e por isso entendo o pq desse alvoroço. Mas eu também não concordo.

  • Fernando Alves

    O mais curioso (e interessante) disso tudo não é nem a distorção da realidade que todos já conhecemos desde sempre; é ver pessoas como a Clarissa – jovens de classe média que tem um mundo todo pela frente – perceberem o "vórtex de distorção da realidade" cupertiniano e conseguirem colocar-se contra ele. O QUESTIONAMENTO é a chave disso tudo.

    Essas múltiplas distorções da realidade perceptiva humana existem aos montes em todas as nossas camadas de existência e convivência, não importa a faixa etária ou a cultura local… e elas continuaram existindo pois são inerentes à forma de vida que adotamos nessa sociedade pós-industrial. O que me surpreende e fascina é esse novo momento em que o aparente e subjetivo déficit inovativo das empresas permite à juventude o questionamento. Pra onde esse novo vento vai nos levar?

    • Fernando Alves

      *continuarão

  • Dido

    A rigor, haveria coisas a se questionar antes de se discutir se há demanda pelo iPhone. Por exemplo, hoje o telefone fixo é ubíquo e normalmente estamos perto de um. Para quê celular?? Normalmente moramos em cidades que são servidas de transporte público regular. Para quê um carro?? Não é a Apple que distorce a realidade: somos nós mesmos…

  • Acho o blog muito bacana! A página no facebook também! Só faltam uns vídeos no youtube né? Imagino que ficaria bem maneiro! Parabéns mesmo 🙂

  • Richard Mcmannus

    Obsolecencia programada, estrategia amplamente usada pela industria automobilistica, postulada por Alfred Sloan Jr. Na General Motors nas decadas do pos guerra. O consumismo exacerbado, o imediatismo descontrolado combinado com um geracao de alienados que pensa estar update, mas que reage como cordeiros à essas manobras jurassicas de vendas e consumo. "A frustacao do ser humano esta na proporcao das necessidades que ele cria para si proprio".

  • Falta preencher um "lugar" que está vazio no coração do homem, este "lugar" não pode ser preenchido com algo material, exemplo muitas mulheres quando ficam triste e depressivas acham que é porque precisam de uma bolsa ou sapato novo, sendo que muitas já devem ter pelo menos 20 pares de sapato, e compram, depois de uma semana começam a ficar triste novamente, desde 2009 uso iPhone e hoje tenho um iPhone 5, passei por uma experiencia horrível em 2010 quando a apple lançou o iPhone, comecei a ficar muito ansioso e no dia do lançamento no Brasil não consegui comprá-lo, naquela noite não consegui dormir tive que dar um jeito de comprar no dia seguinte, fiquei 4 horas na loja da claro pra finalizar a compra. Hoje continuo gostando de iPhones, mas encontrei algo que realmente pode saciar meu coração. Muitos podem até zombar do que estou descrevendo, mas é a pura realidade, DETALHE GOSTO DEMAIS DESTE BLOG! LEIA A BÍBLIA E VC VAI ENCONTRAR A RESPOSTA!

    • JanjaBoy

      Acho que aqui não é lugar para pregar, né?
      Se é piada está valendo!

  • JanjaBoy

    Depois que a indústria descobriu que pode inventar "vontade", o povo vai querer saciar essa vontade.
    Como paralelo, a indústria automobilistica que lança o modelo do ano anterior com um novo desenho na carroceira e vira o "novo" modelo.
    Acho que essa vontade, é a mesma que meu bisavô tinha quando via uma nova enxada. 🙂

  • Entendo perfeitamente o seu ponto de vista. Concordo em parte, pq eu possui todos os iPhones e me considero uma pessoa normal. Eu troco de aparelho pq eu gosto de novidades, e gosto de ver o máximo que o meu aparelho pode proporcionar. Eu se eu não uso por completo, uso na casa dos 90%, e só compro seminovo, sempre com um preço mais camarada. Nunca com os preços abusivos das lojas aqui no país.

    O que eu não consigo entender são duas coisas: O porque tanta gente endeusa o aparelho? Eu o considero o melhor telefone do mercado, mas no final das contas, é um telefone. Ele tem seus defeitos. Poxa, tem gente com os valores trocados. Tem gente que trata como uma jóia. Cansei de ver o povo que não sabe nem usar o iCloud, outras nem sabem que ele existe, que só baixam aplicativos de graça, com pena de gastar US$1 em um aplicativo, mas que chegam a pagar R$ 3000 no telefone aqui no Brasil pra poder desfilar ai com o novo telefone com novidades, que nem ele mesmo sabe quais são.

  • Denys Lourenço

    Ótimo post….Parabéns

  • Junior Garcia

    Pessoal parem de achar que o capitalismo é algo ruim pois sem o mesmo nem a apple existiria nem tampouco seus produtos, e consequentemente, nem esse site.
    Tudo relacionado a entretenimento, inovação e qualidade de vida, vem da concorrência de empreendedores visionários. Se querem ser tão questionadores de dogmas da sociedade, que tal começar a questionar esse senso comum anti-capitalista que todo mundo parece carregar consigo só para se sentir mais justo?
    PS: no restante os posts e comentarios estão impecaveis.

  • lindemberg

    O artigo não fala mal do Capitalismo…só do impulso das pessoas em ter algo melhor sem motivo,que não é o caso de por exemplo do nosso amigo acima smllalmeida, ele uso quase tudo do telefone… Realmente o mal do seculo 21 é a ansiedade,o imediatismo …. Acredito que quase todos nos ja passamos por esse tipo de situaçao: quer muito uma coisa e depois que consegue já perde a graça.é essa conversa vai longe….rsrsrsrs

  • Hades666

    Isso chama-se: "evangelização", tudo bem pensado e planejado….faz parte 😉
    E o "gado"…..vai….rssss

  • linguao

    Obsolescência Programada com certeza (pelo lado psicológico, e não pelo lado técnico dos produtos).

  • Rodrigo Lima

    Estude marketing e psicologia aplicada à economia que você descobre!

  • Rodrigo Lima

    Quanta bobagem, não há nada de novo. Na corte de Luis XIV as pessoas ficavam ansiosas em saber como seria a próxima festa no Palácio de Versalhes, que show pirotécnico iria maravilhá-los, que animais e danças veriam, que peruca o rei usaria etc. O tal imediatismo, como o chamam, não é novo, só é mais evidente porque a velocidade das informações, das viagens transoceânicas, das comunicações ser muito maior que 1 século, 1 década, 1 ano atrás, 1 hora atrás. 30, 29, 28, 27 ….